O Síndrome de Asperger ameaçou José Vasconcelos com uma vida de isolamento e ansiedade mas ele decidiu retaliar. Aos 27 anos, continua a derrubar barreiras em busca da independência.

Duas vezes por semana, José Vasconcelos repete o percurso. Sai de casa, em Cascais, e apanha o comboio até Lisboa. No Cais do Sodré troca a beira-rio pelo subterrâneo, linha azul, até chegar à Casa Grande, em Benfica, uma vivenda amarela esquecida entre os prédios da freguesia onde está instalada a sede da Associação Portuguesa de Síndrome de Asperger (APSA). À primeira vista, é apenas um percurso de transporte público, feito e refeito tantas vezes por tanta gente, mas para José é muito mais: é a certeza de que, pelo menos naquele dia, superou um dos muitos obstáculos que o Síndrome de Asperger lhe tenta impor. «Quando soube o que tinha, fiquei um bocado assustado», confessa. «Pensei que era algo muito grave, que era uma doença muito incapacitante. E é, em certos aspectos, mas não tanto como eu estava a pensar».

Lidar com a multidão foi, desde sempre, um desafio. As estações de comboio e de metro, sempre tão cheias de gente, de movimento, de ruído, provocavam-lhe crises de ansiedade que, frequentemente, se agigantavam em ataques de pânico. Mesmo quando o número de pessoas em seu redor era mais pequeno, José tinha dificuldades em interagir. «(Na primária), os meus colegas queriam jogar futebol e brincar uns com os outros e aquilo deixava-me um bocado a leste». Navegou a adolescência como soube, umas vezes na crista da onda, capaz de se relacionar com os colegas, de lidar com os desafios; outras, arrastado pela rebentação feroz, fechado em casa, incapaz perante as tarefas mais básicas.

Aproveitou para se focar nos estudos. Terminou o secundário «com uma média razoável» e, em 2007, decidiu seguir para a faculdade. Foi um bem que veio por mal. Escolheu a licenciatura de Estatística Aplicada, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, «porque a matemática é uma coisa de que eu gosto», explica. «Imaginava-me a trabalhar no INE, a fazer gestão de dados». Começou com o pé direito, a fazer cadeiras e amigos, de olhos postos na vontade de ir atrás do emprego de sonho mas a ânsia do futuro começou a pesar-lhe nos ombros. O segundo ano do curso arrancou com um mau presságio, quando teve «uma chatice com uma colega». Um trabalho de grupo, uma diferença de opinião e aconteceu. «Dei-lhe um empurrão porque estava chateado». Depois desse episódio, deixou-se cair num isolamento cada vez mais profundo, imóvel perante o avanço vertiginoso do mundo. «Era tudo muito rápido, muita informação ao mesmo tempo» e ele sem conseguir manter o ritmo.

Quando chegou ao terceiro ano do curso, os recuos acumulavam-se. A ideia de andar de transportes públicos ou de fazer um exame viraram tormento. Desabou. «Estava com alucinações. Ouvia vozes na minha cabeça e pensava que eram os outros.»

Desistiu do curso, contra a vontade: «Queria acabar a licenciatura. O problema não era tanto o conteúdo, era a instabilidade e ansiedade que aquilo me provocava». Ainda tentou resistir ao impulso do isolamento. Foi voluntário no ATL da Galiza, em Cascais, mas a dificuldade em interagir com os outros foi mais forte e saiu.

Corria o ano de 2013 e é também por esta altura que José descobre a APSA. Nova psicóloga, medicação reajustada: «A Patrícia [Sousa, psicóloga] trabalhou mais os meus sentimentos. Queria que eu explicasse aquilo que sentia a cada momento». Porque essa é outra das particularidades de quem tem Síndrome de Asperger: a dificuldade em entender sentimentos e em ler expressões faciais. «Já percebo um bocadinho mais, mas ainda é muito vago para mim», assume. Mas continua a tentar. Regularmente, posiciona-se em frente a um espelho com um conjunto de cartas que ilustram emoções na mão e pratica: o sorriso, o sobrolho franzido, tentando associar aquilo que vê àquilo que sente.

Esse trabalho ensinou José a «legendar o mundo», a perceber «o que se passa à minha volta através das reações das pessoas e do nosso meio», a compreender que «tinha de fazer um caminho progressivo para estabilizar». O caminho tem sido íngreme, a passada lenta, mas as conquistas de valor incalculável. Agora frequenta um curso de inglês, outro de informática e ainda um atelier de jardinagem e horticultura. Usa os transportes públicos sem problema e já não se incomoda com a confusão no hipermercado quando lá vai comprar qualquer coisa para comer. Se sente a ansiedade a crescer, já sabe o que fazer para a dominar. Quando se cruza com outra pessoa que está a passar pelo que ele passou, já sabe finalmente o que dizer: «Dá tempo ao tempo, deixa-te relaxar, segue os conselhos dos psicólogos e dos psiquiatras, deixa que a medicação actue e, com o tempo, vais conseguir ter resultados na tua vida».

Texto de Pedro Veiga | Fotografia de Pedro Loureiro